Zouk com muita confusão

No passado fim de semana teve lugar a quarta edição do festival Zouk. Um festival que se pautou por muita confusão. Salvaram-se os artistas que tudo fizeram para abrilhantar o espectáculo. Socorremo-nos de um artigo publicado hoje pelo Jornal de Notícias, que se segue.

zouk111
 

Milhares de pessoas viram goradas as suas intenções de testemunhar a um verdadeiro Festival Tropical Zouk devido a uma série de aspectos ligados à organização do evento. É que, apesar de estar na sua quarta edição, este festival, sob responsabilidade da empresa Minó dos Santos Produções, com o patrocínio da companhia de telefonia móvel moçambicana mCel, continua muito longe da perfeição, em termos organizativos. Os contratempos verificaram-se desde a aquisição dos bilhetes aos acessos ao local do show, designadamente o campo do Clube de Desportos da Maxaquene, na baixa da cidade de Maputo, passando pela ineficiência da segurança nas portas.A qualidade do som, as paragens prolongadas – no intervalo de entrada de uma e outra banda –, bem como o cheiro nauseabundo nos sanitários, submetendo, deste modo, as pessoas a um verdadeiro martírio, são outras notas a reportar.O que se passou nestes dois dias, sobretudo no sábado, não encontra justificação para um evento que já vai na sua quarta edição, o que pressupõe que as falhas detectadas desde a primeira edição já deveriam já ter sido superadas. Os problemas começavam mesmo à entrada daquele campo, onde na bilheteira instalou-se o caos para a compra dos ingressos que foram vendidos até um pouco depois das 23 horas, não obstante o concerto ter iniciado as 19 horas e o local já estar abarrotado.Não se sabia de onde vinha tanto bilhete naquela noite porque até ao meio da tarde de sexta-feira a organização dizia que estes tinham esgotado. Pelo menos é a informação que se obteve a partir dos locais oficiais de venda dos ingressos. Já se falava que as entradas esgotaram. Seguiu-se a confusão para aceder ao campo. Num esquema impossível de compreender, os agentes da segurança destacados para o local faziam-se passar por escolta e levavam pessoas a dedo para o local do espectáculo. Um número não identificado de pessoas conseguiu entrar mesmo sem bilhete, valendo para tal cem ou duzentos meticais para o “refresco” dos agentes da Polícia da República de Moçambique (PRM) para ali destacados, que nem temiam em alongar a desorganização. A agitação tomou conta das pessoas que, com o passar do tempo, iam ouvindo a actuação dos músicos sem poder ver seus ídolos no palco. Tomadas pelo desespero e aos empurrões nas filas, pressionaram uma das barreiras que acabou cedendo, permitindo que entrassem às centenas. Sem saber o que fazer, os agentes da Polícia tiveram que disparar várias vezes para o ar visando conter os ânimos dos amantes do zouk e tentar debelar os “furos” na entrada. Por outro lado, mesmo sem um caso conhecido, alguns agentes apontavam as suas armas para as pessoas, causando medo a quem sacrificou o seu dinheiro para ver o festival.Instalado o pânico entre o público que queria assistir ao festival, e ante a impotência da Polícia, fortemente armada, e da equipa organizadora em garantir ordem, viu-se já os agentes a distribuírem cacetadas a quem ousasse aparecer à sua frente. Há o registo de pelo menos duas pessoas que, no meio de tanta confusão, terão desmaiado. Tudo isto sem possibilidade de evacuação. Outros ainda ficaram com fracturas que obrigaram a intervenções médicas. Enquanto isso, o concerto decorria no interior do campo com interrupções e paragens prolongadas sem explicação. Nalgum momento chegou-se a ficar sem som por cerca de 30 ou mais minutos. E mais, nos dois dias não se cumpriu o horário, os músicos entraram sempre atrasados, não obstante algumas excepções.

O drama dos sanitários

Para um festival que se realiza pelo quarto ano consecutivo era de esperar que alguns aspectos como recolha de lixo e limpeza dos sanitários móveis já tivessem atingido a perfeição, e o público não fosse confrontado com falta de higiene. Estranhamente, no Campo do Maxaquene não havia separação no acesso aos sanitários. Tanto os homens como as mulheres usavam os mesmos locais. E não demorou muito para o local onde foram instalados ficar “inundado” de urina e um insuportável odor. A dado momento as pessoas começaram a fazer as suas necessidades biológicas mesmo ao ar livre porque os sanitários se transformaram num atentado à saúde dos utentes. E ninguém parecia estar disposto a pôr em risco a sua saúde. Por causa disso, as senhoras viram-se em terríveis ginásticas de ter que ficar de cócoras e, ao relento à vista de todos, despir e urinar. Esta situação repetiu-se tantas vezes que já ninguém ligava a mínima. Era de esperar que os organizadores soubessem que num local fechado, onde se consomem doses cavalares de bebidas alcoólicas houvesse condições de higiene e saneamento, respeitando as pessoas que compraram bilhetes para o festival. E bilhetes nada baratos.

Os artistas como salvação

Como que a pressentir os diversos problemas que surgiram do lado do público, os artistas subiram ao palco e deram tudo de si para a alegria dos espectadores. A maioria conseguiu superar a expectativa dos fãs e não só. Uma das atracções da sexta-feira foi a banda Tabanka Djaz e o projecto Mobass. Nesse dia actuaram os moçambicanos Cláudio Ismael, Júlia Duarte, C. Duarte, Slowly e Calisto Ferreira e ainda os estrangeiros Jean Michael Rotin, Ary e Kaysha. No sábado, coube à banda Kassav levar o público ao delírio, ao interpretar os seus temas de sucesso, na sua maioria antigos, mas sobejamente conhecidos pelos seus fiéis amantes.Realçar que este agrupamento já não apresenta o mesmo vigor de há quatro anos, quando Maputo organizou a primeira edição do Festival Tropical Zouk. O segundo dia do festival foi igualmente marcado pelas actuações dos músicos Abuchamo Munhoto, Humberto Luís, Euridse Jeque, Swit, Grace Évora, Suzana Lubrano, Kyaku Kyadaff e Yola Semedo, esta última a encerrar o evento.Os organizadores falam de cerca de 35 mil pessoas que acorreram ao Campo do Maxaquene, nos dias 24 e 25 de Abril, para assistir à quarta edição do Maputo Festival Tropical Zouk.

Jornal notícias / 29/4/20157 ALCIDES TAMELE

FaceBook  Twitter