lLHA DE MOÇAMBIQUE | Salim Sacoor | Jornal Sol, Revista Lua

ILHA DE MOÇAMBIQUE

‘Está a chegar, está a chegar!
Vamos para a praia ver a nau a chegar!
Depressa mulher leva as crianças, não é todos os dias que vemos uma nau a chegar.’
A nau vinha do mar arábico, com as velas enfunadas ainda, era uma imagem muito bonita.
O mar estava calmo e o sol muito brilhante, era um dia que havia de se tornar de festa.
Depois de algum tempo de espera a nau arriou as velas e deitou âncora para parar. Já se viam pessoas na nau a tarefadas para que tudo corresse bem, não fosse a nau encalhar num baixio.
Logo de seguida um barquinho foi baixado para que um árabe se metesse nele e se dirigisse a terra.
Assim que desembarcou uma multidão rodeou-o, acolhendo-o calorosamente certamente porque já o conheciam. Uma voz forte gritou bem alto do meio da multidão:
-Mussa! Mussá! Benvindo meu grande amigo, há muito que estava à tua espera.Vem meu bom amigo, vem!
-Salams meu bom amigo, contigo,Mustafá, sinto-me em casa! Onde está o teu filho? Desta vez, como te prometi, trouxe o meu filho!
- O meu filho está aqui mesmo, vamos andando para a casa e lá vamos conversar bebendo o chá que tu tanto aprecias, acompanhado de bolachinas que a tua cunhada vai fazer num instante.
Durante a caminhada para casa como todas as crianças, que para se entenderem, não precisam de saber a mesma língua, os dois meninos já estavam juntos, como amigos de longa data.
Chegados a casa, enquanto os pais conversavam animadamente dando abraços a todo o instante, Ahmed filho de Mustafá e Bilal filho de Mussá entretinham-se a brincar com berlindes. A eles, para animar, havia-se juntado mais dois amigos. Primeiro foram chamar Jorge, filho de pais cristãos e Nitin filho de indianos. E é impressionante como eles se divertiam e se entendiam na perfeição.
Mas brincar aos berlindes também cansa e os quatro puseram-se a pensar no que fazer. Agora há uma personagem que, desde o princípio, quer entrar na história e chegou a altura de a deixar entrar.
Trata- duma menina dos seus 10 aninhos, bonitinha bem penteada pela mãe, com longos cabelos pretos, brilhantes porque a mãe lhe pôs um óleo especial que, para além de os embelezar, também os fortificava. Ela tem uns olhos bem amendoados arrematados com “kajal”, um lápis especial que serve para sublinhar os olhos.
Para a história vamos lhe chamar de Sharmili- o que quer dizer envergonhada - apesar de ela ser tudo menos isso.
-Cheguei, tal como a nau cheguei!-disse a Sharmili- vamos lá brincar ao pé-coxinho!
Dividiram-se, ela fazia par com o Bilal e doutro lado - Ahmad, Jorge e Nitin.
Escusado será dizer que a Sharmili e o Bilal ganharam.
Agora vamos brincar às escondidas. E brincaram até que o cansaço os venceu e tiveram que parar.

Sentaram-se ao lado dos pais a ouvirem, embora sem perceberem, as histórias mais incríveis que pareciam entender pelos gestos e voz que eles faziam ao falarem.
O pôr-de-sol tinha chegado e, para anunciar o fim do dia, uma voz doce, macia, mas firme, chamou todos para a oração.
Na ânsia de ainda aproveitarem o tempo, Ahmed, gesticulando, disse ao Bilal, a Jorge e a Nitin - e claro que nem foi preciso dizer a Sharmili - para o acompanharem. Levou-os a ver uma fortaleza grande como tudo, pintada de branco que, no meio daquele pôr-de-sol de cores nunca antes visto pelo Bilal, parecia que mudava de cor à medida que o Sol se escondia na terra.
Voltaram para casa e depois de um bom jantar, o bocejo começou a tomar deles e, antes que adormecessem ali mesmo, foram para o quarto e dormiram profundamente.
De manhãzinha um forte alvoroço tomou conta da pequena vila, todos corriam em direcção à fortaleza para verem o que tinha acontecido. Ahamad e Bilal correram também, acompanhando a multidão para ver o que tinha acontecido.
Não precisaram de perceberas palavras para perceber o que tinha acontecido. Eles próprios não acreditavam no que viam: toda a fortaleza estava despida da cor branca, agora era de cores esquisitas e as pedras, todas diferentes, tornaram a fortaleza muito feia .
Gesticulando Bilal perguntou a Ahmad o que tinha acontecido?
Ahmad nem se deu ao trabalho de responder, pegou na mão de Bilal e levou-o em direcção à casa.
Mais tarde, Mussá, pai de Bilal, explicou-lhe que um mágico - que dava pelo nome de Mwanande - à noite tirava toda a tinta da fortaleza, como forma de vingar-se, mas a população durante o dia voltava a pintar de novo porque era preciso vencer o mágico que fazia as coisas com maldade.
Os habitantes da ilha de Moçambique tanto insistiram em pintar a fortaleza, sempre que ela ficava sem a tinta que a embelezava, que o mágico, cansado, foi-se embora para sempre!
Quando uma voz chama todos para a oração do fim do dia,o chamamento tem uma doçura nunca antes ouvida, ecoando até se perder, já longe no horizonte. O pôr-do-sol fica com cores nunca antes vistas. E acreditem nunca as mangas foram tão doces...

A Ilha de Moçambique era dos poucos sítios onde pessoas de diferentes origens e credos conviviam intensamente. É um exemplo a manter neste nosso Moçambique.

Agradeço ao Mia Couto, que recolheu a história de Mwanande e ao Vitor Gonçalves que ma deu a conhecer.

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